ESTÁ PROVADO, TREM AMADO!

José Manoel 28 de abril de 2015 0

A sensação empírica da aceitação do trem vem sendo unânime desde antes do início do sucateamento do trem no Brasil. Bem, pelo menos desde que comecei a trabalhar pela volta dos trens no Brasil tem sido assim. O surgimento da FerroFrente, inclusive, se deu pela conjunção de indivíduos das mais diferentes regiões do Brasil e dos mais diversos extratos sociais que comungavam extrema empatia pelo trem, seja por razões lógicas, econômicas e ambientais, seja por aquela saudade de não sei o que que o trem provoca, talvez por evocar também o passado e a ancestralidade nossa.

Tudo muito certo, mas a empiria em si não prova muito, nós mesmos, em reuniões da FerroFrente por diversas vezes nos questionamos: afinal, até onde essa sensação mútua representa a verdade e até onde ela representa apenas o fato de nos aproximarmos de pessoas que ao fim e ao cabo pensam como nós, se preocupam com os mesmos problemas que nos preocupam?

A resposta para essa dúvida, decidimos, seria dada formalmente, contratando uma empresa de pesquisa idônea, que conduzisse a pesquisa de forma científica, com controle da amostragem, e com os cálculos que se fazem necessários com os resultados.

Contratamos a Interativa Pesquisas e a primeira questão que se ergueu foi exatamente sobre a amostragem. Por um lado seria conveniente uma pesquisa de abrangência nacional, mas quanto mais estendêssemos os limites geográficos, mais débil tenderia a ser o resultado, ensinou-nos o dirigente do órgão de pesquisa. Resolveu-se que a pesquisa não deveria ultrapassar os limites do estado de São Paulo, foi quando surgiu a ideia de pesquisarmos as cidades do interior que perderam o trem. Uma tal pesquisa seria tendenciosa, ensinou-nos novamente o pesquisador, pois nessas cidades haveria uma tendência de haver mais pessoas ou simplesmente saudosas ou mesmo prejudicadas pelo desaparecimento desse meio de transporte e desenvolvimento.  Acatamos de pronto o argumento e sugerimos então que encontrássemos uma única cidade (para assim ter maior assertividade no resultado), mas que fosse, ao contrário daquelas que perderam o trem, a cidade que por suposto teria motivos para ter aversão a esse meio de locomoção de carga e pessoas.

Dado o desprestígio com que tem sido tratado pelo poder público, muita vez mais de olho no desvio que no caminho, concordamos todos que uma cidade assim é Guarulhos. Explico. Guarulhos, com um milhão e trezentos mil habitantes, é uma cidade que tem um dos maiores percentuais de usuários do trem, mas não o trem luxuoso, com ar condicionado e visão panorâmica de paisagens bucólicas, o usuário de Guarulhos, ao contrário, frequenta trens lotados, que trafegam por regiões inóspitas.

Todos concordes iniciamos a pesquisa para saber da aceitação do trem exatamente no lugar em que supostamente teríamos os resultados mais negativos possíveis. Foi um levantamento estatístico por amostragem estratificada, tomando o conjunto da população moradora da cidade de Guarulhos-SP como universo da pesquisa. O objetivo era avaliar a aceitação das ferrovias na cidade e o método de coleta de dados foi o de entrevistas presenciais domiciliares mediante a aplicação de questionário estruturado. A amostra total foi de 400 entrevistas, distribuídas proporcionalmente entre a cidade, o que deu uma margem de erro de apenas cinco por cento, com intervalo de confiança de 95%. O período de realização foi em março de 2014.

As principais questões (e respostas) apresentadas foram:

 

O(a) Sr(a) acha que haveria alguma vantagem para sua região se o governo investisse mais em trens e ferrovias?

88% dos homens e 85% das mulheres responderam afirmativamente que sim, haveriam vantagens.

Entre as pessoas de 35 a 44 anos de idade 94% responderam apontando a vantagem.

Quanto à escolaridade, quanto mais escolaridade, maior o percentual de pessoas que viram vantagens nesse investimento, indo de 50% entre os analfabetos a 89% tanto entre aqueles que haviam concluído o Segundo Grau, quanto aqueles que haviam concluído algum curso superior.

1

Em sua opinião, o Governo deve usar os trens: 1. Somente para transporte de cargas; 2. Somente para transporte de pessoas; 3. Tanto para transporte de pessoas como de cargas?

Apenas 1 % responderam que devia ser apenas para cargas;

Enquanto 33% responderam que só para passageiros;

E 66% para passageiros e cargas.

2

As ferrovias podem ajudar a combater a poluição nas grandes cidades?

82% disseram que sim, poderia ajudar;

15 % acharam que não;

E 3% disseram não saber.

É melhor transportar cargas em trens do que em caminhões.

85% Disseram que sim,

13% acharam que não

E 2% afirmaram não ter opinião a esse respeito.

 

3

Se o governo investisse em ferrovias iria ajudar a economia das cidades do interior?

91% dos entrevistados disseram que sim, isso iria ajudar as economias do interior.

Para 7% isso não ajudaria.

E 2% disseram não saber.

4

Muitas cidades em São Paulo só se desenvolveram graças às ferrovias.

89% afirmaram que sim, que muitas cidades só “foram pra frente” graças à ferrovia.

Para 8% isso não é verdadeiro

E 3% abstiveram-se de responder.

5

Você e sua família se sentiriam beneficiados financeiramente com a volta das ferrovias para cidade?

73% responderam que se sentiriam beneficiados, bem como sua família.

20% Disseram que não se sentiriam beneficiados.

E 6% não tiveram opinião a esse respeito.

6

A presente pesquisa, conduzida dentro dos parâmetros científicos do conhecimento a respeito de levantamentos de opinião, portanto, patenteou aquilo que sabíamos de maneira empírica, na conversa com usuárioas, operados, especialistas, engenhos de tráfego e cidadãos em geral. O brasileiro gosta de trem.

Muito bem, mas no que as respostas às questões surpreenderam foi no nível de entendimento do homem de senso comum. Em geral atribui-se o gosto pelo trem a questões afetivas, ligadas a, por exemplo, fotografias do passado. Mas não, o brasileiro está sim consciente da emergência do problema e de quanto a falta de investimentos, a terceirização mal-feita, e o descaso geral prejudica a cada um de nós. Evoé!

About the author

José Manoel Doutor em Engenharia de Produção, Mestre em Engenharia Mecânica, Engenheiro Civil, Jornalista e Advogado. Pós-graduado em Geoprocessamento, Termofluidomecânica, Eng. Oceânica e História da Arte. Conselheiro do Instituto de Engenharia em dois mandatos e do CREA - Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo. Para visualizar o curriculumn clique aqui.

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