SANTOS EM CHAMAS

José Manoel 21 de maio de 2015 0

 Abril é o mais cruel dos meses,

Germina Lilases da terra morta

  1. S. Eliot

 

Mal iniciava abril e mais uma vez o maior porto da América Latina se via novamente ameaçado por um sinistro de grandes proporções. Toda a logística ameaçada, todo o patrimônio público investido ameaçado, a população em pânico.

Por milagre os enormes prejuízos e efeitos nefastos não se espalharam e comprometeram desde o conteúdo do tanque até a imagem do nosso país; desde o desafio da lógica à vida de inocentes, desde o grande porto à cidade histórica de Santos.

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Acidentes, contudo, acontecem e é difícil uma operação que não envolva algum risco. A usina de Chernobyl (de pretenso risco zero e que em abril [sempre o aziago abril] de 1986 matou milhares de pessoas e prejudica outras tantas até os dias de hoje) não me deixa equivocar. Mas a questão que se coloca é: qual a intensidade de risco é necessário assumir? No caso em tela vários fatores mostram que ele tem sido muito maior que o necessário e estamos aqui para, junto com a população, cobrar que seja diminuído. Como se verá, não é tão difícil reduzir esse risco, basta atentar para os problemas. Claro está que não temos varinha de condão, nem soluções mágicas, mas nos auxilia a lógica, e, diga-se, uma lógica básica, um raciocínio que beira o elementar.

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Em primeiro lugar a questão dos escritórios ao lado dos tanques. Um projeto desses precisa ser levado a juízo, alguém precisa ser responsabilizado, sob pena de nunca acontecer nada, digo, de nada vir a mudar. Além da evidente exposição da vida dos trabalhadores, e, em se salvando estes, a documentação mesma fica comprometida.

Na verdade, há algo primeiro: há-que se mudar as normas técnicas. Nossas normas estão, por assim dizer, subdimensionadas, especialmente se considerarmos as vigentes nos grandes portos europeus.

A distância mínima entre os tanques, como é notório, precisa ser elevada pelo menos ao ponto de alcançar a condição de quando um tanque sofrer sinistro não colocar, ato contínuo, os demais tanques em iminente risco.

Outro fator que tem se mostrado falho é referente à fiscalização. Uma maior fiscalização é condição sine qua non para que esses riscos sejam contidos. Não acusamos aqui os agentes fiscais, que no mais têm realizado seu trabalho, mas eles são poucos, mal preparados e aparelhados. O investimento em tecnologia é de importância máxima quando se fala em segurança. É preciso também mais coragem para fiscalizar mais e exigir o cumprimento das atuais normas e regulamentos.

Fazemos essas observações na semana de importante reunião na Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos, a respeito do assunto aqui tratado, evento que é merecedor de todo o nosso apreço e apoio, assim como foi o realizado pela OAB–Santos. E além disso, este artigo procura divulgar, através deste prestigioso jornal, orgulho de todos nós na baixada santista, o surgimento do Comitê de Acompanhamento pela Cidadania das ações e providências que estão sendo adotadas e outras que poderão vir a colaborar no combate efetivo às causas reais do lamentável e previsível incidente.

Desse comitê participarão biólogos, engenheiros, urbanistas, advogados, professores e técnicos, entre outros especialistas de vários segmentos que, voluntariamente, colaborarão inclusive na apuração dos fatos ora investigados.

Por fim queremos saudar a inciativa da Prefeitura de Santos que promoverá na semana do meio ambiente o lançamento do plano climático municipal, no qual discutirá inclusive os efeitos nocivos ao meio ambiente de um sinistro como esse.

 

José Manoel Ferreira Gonçalves, é presidente da FerroFrente- Ferrovias, Doutor em engenharia, cientista político, jornalista e advogado. Autor, entre outros, dos livros Despoluindo Sobre Trilhos, Um Brasil Sobre Trilhos e Depolutting on the Tracks of Brazil. josemanoel@sosplaneta.com.br

 

Esse artigo foi publicado ontem, 20/05/2015, no Jornal A Tribuna de Santos.

 

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About the author

José Manoel Doutor em Engenharia de Produção, Mestre em Engenharia Mecânica, Engenheiro Civil, Jornalista e Advogado. Pós-graduado em Geoprocessamento, Termofluidomecânica, Eng. Oceânica e História da Arte. Conselheiro do Instituto de Engenharia em dois mandatos e do CREA - Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo. Para visualizar o curriculumn clique aqui.

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