Como o trânsito carregado impacta na vida das pessoas

Luiza Raniero 17 de maio de 2013 0

Na semana passada escrevemos sobre carona solidária, um meio de consumo colaborativo que tem facilitado a vida de muita gente por aí. Na matéria de hoje, o tema está relacionado e trata mais especificamente dos impactos do trânsito intenso na vida das pessoas.

Quem nunca se encontrou na irritante situação de passar horas e horas preso no trânsito?! Dando uma de Polyana, menos mal quando pode ser no conforto (que também depois de certa altura, caduca) do interior de um automóvel. Mas mesmo nesse meio de transporte, ou em qualquer outro, os impactos negativos causados pelo trânsito intenso nas cidades e rodovias são inúmeros e às vezes, de difícil mensuração. Vão desde sintomas e reações pontuais, como irritação e mal estar, até os mais complexos e crônicos, como os relacionados a fatores psicológicos, de saúde, sociais, econômicos e ambientais, que afetarão diretamente a qualidade de vida do ser humano contemporâneo. Num país de dimensões continentais, o planejamento, investimento e desenvolvimento de uma logística aplicada a tal realidade, torna-se fundamental para o bom andamento – literalmente – de seus habitantes.

Embora seja um tema atual, preocupações e estudos relacionados aos efeitos do aumento do trânsito em áreas urbanizadas datam da década de 60, com destaque para a diminuição das velocidades atingidas e o crescente aumento no número de acidentes de trânsito, acarretando em perda da qualidade do espaço, tempo e da saúde (CRUZ, 2006). De lá para cá, a priorização de políticas que incentivam o transporte individual em detrimento do coletivo ou de outros modais que não o rodoviário, tem agravado a fotografia do trânsito e sua mobilidade. Em se tratando dos modais logísticos existentes no Brasil, segue-se a mesma linha. Como apontado por Vianna, Portugal e Balassiano (2004), citado por Cruz (2006), fatores como a estabilização da economia, alterações na estrutura social, utilização de planejamento alicerçado no transporte rodoviário e a falta de investimentos em transporte de massa, contribuem para explicar a rápida ascensão da frota de veículos. Nesse contexto, quais são os principais impactos percebidos – ou não necessariamente – pelas pessoas que nele se encontram?

Cruz (2006) elenca os principais impactos negativos, cada um com seus desdobramentos e graus de impactação, da seguinte macro maneira: congestionamentos, acidentes de trânsito, poluição sonora, poluição atmosférica – com os automóveis contribuindo com aproximadamente 90% da emissão dos gases (FREDERICO et al., 1997), acentuação do aquecimento global, degradação da paisagem, degradação da qualidade de vida, desagregação comunitária e rompimento nos relacionamentos sociais, utilização e desenho de espaços públicos voltados prioritariamente aos veículos, desconforto generalizado no uso dos espaços públicos pelo pedestre e gastos públicos.

Somando-se ainda aos já apresentados impactos acima e endossando o último – gastos públicos – os prejuízos econômicos para o país como um todo também merecem destaque. Estudo realizado por Frederico et al. (1997),  estima em aproximadamente 6 milhões de dólares diários o prejuízo – em tempo e combustível – gastos nos congestionamentos, levando-se em consideração a região metropolitana de São Paulo com os seus então 80 quilômetros de congestionamentos cotidianos e os 200 quilômetros em dias de pico.

Em se tratando especificamente dos impactos na saúde de se ficar sentado durante horas, que é o que acontece no trânsito, um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália, e publicado no Jornal Folha de São Paulo (2012), aponta que pessoas que passam muito tempo nessa posição têm sua expectativa de vida reduzida, correm mais risco de desenvolver diabetes e de sofrer com alguma patologia cardiovascular. Isso sem contar no estresse gerado, na perda de tempo, no desenvolvimento de possíveis dores nas pernas, pés, coluna e problemas de circulação.

É importante notar que as conseqüências de um trânsito caótico e uma logística arquitetada de maneira “manca”, se relacionam complexamente entre si.  Um artigo publicado no periódico Veja online traz um exemplo em que se pode observar tais relações. Imaginemos uma pessoa acometida por uma doença respiratória (agravada pela poluição atmosférica). Quanto mais pessoas doentes, mais aumentam os custos com saúde pública – serviço, medicamentos e demanda por leitos em hospitais. Também impacta em valores de seguros e planos de saúde. Pessoas doentes rendem menos no trabalho e tendem a faltar, consequentemente produzem menos, e assim por diante, englobando ainda outros aspectos, como emocionais e psicológicos. No momento em que a qualidade de vida for variável chave na equação para se solucionar os problemas de trânsito, a população, em seus diversos atores, será imensamente beneficiada.

About the author

Luiza Raniero Luiza Montoya Raniero é gestora ambiental, especialista em gestão socioambiental para a sustentabilidade.

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